Amor não-binário, amor lésbico: quem o corpo pensa que é?

Não-binaridade é um regime político oposto à heterossexualidade e seu mundo correlato à monogamia. Não-binários não podem ser classificados em caixinhas como hétero, homossexual, gay, lésbica, etc – como dito, é uma recusa da binaridade, e tais termos só fazem sentido dentro de uma lógica binária (exceto apropriações não-sáficas da lesbianidade, como veremos). A forma de amar não-binária é muito próxima da ecossexualidade, do Eros (o corpo inteiro é alma, zona erógena, sem fundação última) e daquilo que chamei de amor lésbico.

Vou falar algo um tanto clichê, mas que precisamos contextualizar. Vivemos em uma sociedade patriarcal, onde a mulher sofre subordinação simbólica. O desejo feminino é historicamente moldado para priorizar o olhar e o prazer masculino (ser escolhida e não escolher) – mulheres hétero aprendem a amar com desconfiança e negociar constantemente entre afeto e autodefesa, desejo e medo, refletindo uma autocontenção da mulher. Então sobra uma atitude ambivalente que se manifesta como nojo ao corpo masculino. Exceto entre as fetichistas e mulheres foras da curva e excluídas por outras (ao ponto de serem comparadas a demônios), nunca vi mulher hétero alguma ter tanto desejo genuíno pelo pênis masculino do que uma mulher lésbica pela totalidade do corpo feminino, independente se ele tenha pênis ou vulva (o amor hétero corta corpos humanos com seu fetichismo binarista, enquanto o amor lésbico o aprecia em sua totalidade trans, daí porque é curioso aos segredos dos corpos, sem demonizá-lo – solidário a todas as dificuldades, defeitos, coisas tradicionalmente anormais ou nojentas, etc). Isso é obviamente consequência do patriarcado, assim como o fato de mulheres hétero não darem atenção aos testículos, prepúcio (que é algo bem mais valorizado em conteúdos voltados para a comunidade gay – a homossexualidade tem sua vantagem de tentar restituir a totalidade dos afetos e técnicas do corpo masculino), próstata, as milhares de zonas erógenas no pênis, as milhares de zonas erógenas pelo corpo masculino, etc, enquanto mulheres lésbicas possuem conhecimentos infinitos acerca do corpo feminino e o vêem como campo ainda mais infinito de mistério e deleite. Não se pode dizer que alguém é hétero, mas que essa pessoa vive e se relaciona de forma heterossexual.

Amor hétero = negociação, amor lésbico = livre associação de corpos livres e horizontais. O que me impressionou ao circular por meios lésbicos é que embora elas critiquem o ocularcentrismo, fazem um uso bem mais proveitoso do olhar – tenho pena de mulheres hétero, que serão incapazes de se excitar por um homem tanto quanto lésbicas se excitam por uma mulher nua (dado todo o contexto afetivo, comunitário, estético e erótico). Como nos ensina a filósofa lésbica Wittig, mesmo a categoria de “homem” (e consequentemente sua oposição: a mulher) é uma categoria política – se uma mulher ama um homem em sua totalidade, não apenas enquanto forma de afeto, mas enquanto relação social, ela não é hétero, menos ainda uma mulher, e o mesmo vale para os homens.

O que se vê, portanto, na forma lésbica de amar, é uma inocência de afeto que permite relações muito mais simétricas. Outras mulheres não são um perigo, mas uma continuidade de si mesmas – extensão da solidariedade, amizade e reconhecimento mútuo. Daí o óculos lésbico, que não é uma cegueira, mas intensidade contínua de entrega em uma forma mais fluída. Sei que tudo isso varia de pessoa para pessoa. No entanto, há um escape do amor enquanto contrato e hierarquia, permitindo que ele seja vivido como fábrica e não como teatro (no entanto, como no mundo nem tudo se reduz ao amor, o relacionamento lésbico está sujeito a muitos desvios anti-lésbicos porque há outros processos morais/formais/políticos/sociais ocorrendo). A utopia lésbica é a que Freud descrevia acerca da sexualidade, em sua totalidade (ou seja, pós-pornográfica, abarcando todas as técnicas do corpo). Apenas fetichistas ousaram cruzar as fronteiras da própria repressão social – se a identidade é formada pela repressão, o amor hétero também. No fundo, não se trata de uma questão de orientação sexual (preferência por homem ou mulher – essas ficções que sempre que são invocadas pela linguagem, nos causa dor de cabeça com sua confusão e opressão à operação total do corpo), mas de estrutura do desejo: como corpos são lidos, tocados, temidos, acolhidos, etc.

Desconheço diferenças significativas entre o amor lésbico e o amor não-binário, exceto divisões politicamente estabelecidas (Wittig reconhece, por exemplo, que a divisão entre homens e mulheres é uma divisão política, não natural). Ambos operam pela continuidade verdadeira, contra o aprisionamento do desejo/corpo numa grade que o corta em seções. O fundamento de ambos é a curiosidade e a inocência, que não é ingênua, mas ativa, autônoma. Comunas de todo o planeta, lesbianizai-vos!

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