Materialismo libidinal, marxiano, ateu e nominalista do capítulo 1 d'O Anti-Édipo
A síntese conectiva, ou produção de produção, contém máquinas desejantes binárias, pois cada máquina está associada a um fluxo (por exemplo, o ouvido ao som, o olho à luz, etc), acoplando fluxos contínuos e objetos parciais e fazendo os desejos fluírem.
É com esta restrição de fluxos – que o desejo percorre dessa maneira e não de outra (cada máquina com uma função e utilidade específica) –, que surgirá uma máquina territorializante, e isso será respondido com uma síntese imanente desterritorializante: a síntese disjuntiva (que, num primeiro momento, devemos conceber como disjunção inclusiva), ou síntese de registros. Haverá um desejo que resistirá a essa fixação orgânica: o instinto de morte, ou corpo sem órgãos, que por isso mesmo também será chamado de antiprodução. Ele resiste à organização: a boca que antes servia para alimentar-se, agora serve para chupar picas, ou mastigar sem consumir, ou formar palavras que não significam nada, ou mesmo o umbigo pode se tornar uma boca.
Enquanto a produção opera por conexões, o registro opera por permutação, que redistribui os elementos em relação à antiprodução (o corpo sem órgãos que é a condição de possibilidade da produção). Isso significa que as disjunções permutam, e por conta dessa relação de indiferença, sempre retornam ao mesmo, deslizando sem se fixarem em um lugar, mas operando sempre sob os ditames da antiprodução (essa síntese disjuntiva, que organiza imanentemente as condições de produção da realidade, é o Deus de Kant e Schreber, 1903) – o que é assimilado jamais perde sua diferença/singularidade por ser assimilado, formando não um fechamento, mas uma abertura. Por ser totalmente inclusiva, a síntese de registros aqui vai capturar toda a produção para si (através da energia libidinal chamada Numen, divina), dando origem à máquina miraculante, pois tudo parece emanar dela, como uma auto-causa. Isso irá criar um fetiche: o bebê irá ver em todas as coisas um seio, assim como Marx (1894, p. 1073) diz que o capital dá a ilusão de todas as forças produtivas nascerem dele e a ele pertencerem. Por exemplo, drogados e viciados num geral são miraculados, pois acreditam que um objeto específico é a raíz de toda a sua alteração de sentidos e delírios, ignorando o próprio agenciamento maquínico.
Ao contrário, o corpo sem órgãos do capital opera por disjunções não como permutação, mas como exclusão, que exclui as alternativas.
É à luz de tudo isso que Hocquenghem (1973) problematiza: não estamos reproduzindo capitalismo ao, como homossexuais, confinar nossa masturbação aos banheiros e nossas casas? Ao reprimirmos nossa expressão feminina, ou se oferecer a um misógino para ter nossa redenção? Ou criarmos fetichismo por negros? Ao nos interessarmos apenas por bundas e paus, transando com qualquer estranho sem nem mesmo ver seu rosto direito? Ao sempre reproduzirmos o papel do pai de família, jovem, curioso, etc? Ao preferirmos falas do que corpos?
Chegamos, enfim, à síntese conjuntiva, ou síntese de consumo, ou produção de consumo. A separação entre as esferas da produção, consumo e distribuição pressupõe capital, divisão do trabalho e uma falsa consciência de separação entre essas esferas, junto de outros dualismos. O consumo já é produção, de onde nos reconhecemos nele, mas no capitalismo, que realiza uma disjunção entre essas esferas, mediada apenas pelos trabalhos privados, apenas parte do consumo retorna como produção: o salário. O bebê sente prazer no ato de mamar e se reconhece neste processo, por isso é a síntese do “então era isso!”, produzindo um sujeito que não é fixo (não é nem um sujeito autônomo nem um sujeito dono da produção, mas o contrário: submetido à própria produção), mas devém junto de seu consumo (esse sujeito residual que emerge é o sujeito esquizofrênico, ou sujeito nômade e vagabundo). É errôneo, ainda, separar as 3 sínteses, pois Deleuze alerta que o consumo vem depois do registro, mas ele próprio depende do registro: há conexões não-lineares entre elas.
Se a máquina miraculante tenta aproximar a produção da antiprodução do corpo sem órgãos e a máquina paranóica tenta destruir essa própria conexão para manter a pureza do corpo sem órgãos, a máquina celibatária realiza tanto uma conexão quanto desconexão da produção com o corpo sem órgãos, e por isso seu modelo é o da síntese conjuntiva, onde o consumo se compreende como produção. A máquina celibatária é o retorno do recalcado, literalmente, pois o desejo nunca é interrompido/reprimido, mas deslocado (repulsão) e transformado (atração).
Mas por que sínteses? Porque a análise é propriedade do processo edípico. Síntese = destruição/criação, ou o jogo da diferença e repetição. O esquizofrênico, quando consome e distribui, está produzindo; quando produz e distribui, está consumindo; quando produz e consome, está distribuindo. O esquizofrênico que extingue o finito no infinito (infinito ruim) ou a relação no finito (destrói o processo) em relação à produção acaba numa clínica psiquiátrica. Em ambos os casos, se tem um desejo fixo que se deve intensificar ou tratar como meta absoluta (apego). Cada máquina tem em si um microcosmo perspectivista. Quando falamos de produção, não se trata de distinguir entre um produtor (autor) e produzido, mas conceber ambos em sua não-diferença como produção, sem um original transcendente. Não se trata de expressar (o que implica em algo fluindo de um interior para um exterior), mas de produzir. Máquinas são impessoais (inconscientes) porque nunca se referem a um eu, tu, ele, ela, etc – somente se referem a fluxos, fluxos de fluxos, cortes, fluxos, intensidades (no máximo, o Eu, o sujeito intencional, pode rearranjar conexões, organizar novos encontros ou consumir de forma diferente, mas os desejos continuam sendo soberanos, não suas intenções). Por isso, aliás, que não há um inconsciente individual que age contra uma realidade social externa ao desejo: ao contrário, todo desejo (superestrutura) é social (infraestrutura) e toda produção social é uma manifestação do desejo, ambos situados historicamente. Desejo e sociedade interagem de forma direta, sem nenhuma mediação ou sublimação.
A máquina celibatária é um processo de produção de intensidades puras que são experimentadas como devires (devir-mulher, devir-deus, etc), ou como é dito por Nietzsche (citado por Klossowski, 1969), “todos os nomes da história, no fundo, sou eu” (Nietzsche não é tanto um sujeito, mas uma série de estados e devires, contornando o eterno retorno da máquina celibatária, como na física, onde damos nomes próprios aos efeitos em campos de potenciais: efeito Joule, Seebeck, Kelvin, etc). O esquizofrênico consome e se identifica com todos os nomes da história universal, produzindo um estado de voluptas (euforia), não se identificando com pessoas, mas com zonas de intensidade (de onde a abolição do autor é fundamental aqui para este processo ocorrer), e assim, transitamos para o homo historicus, que entende a história como fluxo de devires e intensidades sem linearidade, uma paródia rememorativa onde tudo se manifesta e desaparece no mesmo dia. O esquizo não é alguém completamente desconectado da realidade, mas uma experiência de intensidade pura, desprovida de qualquer forma fixa de representação (nada aqui é representativo, mas vivo e vivido). É o primado do “eu sinto” (Bion, 1963, reconhece o “eu sinto”, mas apenas para subordiná-lo ao “eu penso”, assim como Freud não reconhece a autonomia da psicose ao subordiná-la à neurose), ou seja, intensidades não são alucinações (eu vejo, eu escuto) e delírios (eu penso), mas estados de experiência, de onde alucinações e delírios são secundários (uma tese de Clérambault, 1942, onde o automatismo mental, como ecos, sonorizações e explosões de não-senso é primário, ainda que Deleuze critique-o por seu idealismo, fazendo um materialismo ahistórico e uma história idealista) – ou seja, o esquizofrênico é o que mais se aproxima da matéria viva, diluindo a dualidade entre espírito e matéria. O esquizo só é um sujeito na medida em que resíduos de forças de atração e repulsão o atravessam (por isso é descrito como um ovo atravessado por gradientes, limiares e eixos) produzindo estados metastáveis. Isto é, o ser sempre renasce, e sua identidade é sempre um acidente, não algo eterno sempre presente: não devemos buscar nosso centro, pois fazemos sempre parte de algo maior. Por isso aqui, o corpo sem órgãos é compreendido como intensidade = 0, sem nenhuma estabilidade ou organização.
A psiquiatria tradicional é um falso materialismo, ou seja, idealista, pois reduz a esquizofrenia a conceitos como dissociação (Kraepelin, 1883), autismo (Bleuler, 1911) e espaço-tempo (Binswanger, 1930), centrados no individual (patologia), ao invés de compreenderem seu processo de produção. Ao contrário, o esquizofrênico é alguém que já superou a noção de eu e determinismo familiar. A psicanálise, do mesmo modo, reduz o inconsciente a um teatro antigo (mito, tragédia, sonho), em vez de uma fábrica de produção desejante. O esquizofrênico, ao contrário, não é um eu dividido, mas um devir e produção intensiva. O próprio Jaspers (1913) entendia o ser humano como processo, não como reação ou desenvolvimento de algo “originário” (como a personalidade), sempre em ruptura – apesar de Jaspers não entender o ser humano como um processo material de produção. Natureza = indústria = história.
O desejo pode ser compreendido como produção e como aquisição (platonismo). Quando ele é entendido como aquisição, ele é uma falta (o que também pressupõe que a libido é estocável). Kant (1790) definiu o desejo como uma faculdade, mas mantém a visão do desejo como falta, pois vê a realidade como algo externo, enquanto o desejo produz apenas a realidade psíquica (fantasmas e alucinações). Freud, então, associa o desejo a uma produção de fantasmas que duplica a realidade, onde a falta (produção natural ou social) é incurável, mas a complementaridade deve ser mantida. Lacan, então, percebe que o inconsciente tem a mesma estrutura da linguagem estruturada (apesar de Lacan manter 2 pólos do desejo: o objeto-a, que é uma verdadeira máquina desejante, e o grande Outro, o desejo como falta).
Ao contrário, o desejo é autonomia, produção, uma força produtiva que opera na realidade e produz realidade (e é nesse sentido que o desejo sempre é um desejo social, um desejo em grupo), composto por sínteses passivas que maquinam objetos parciais, fluxos e corpos (unidades de produção). O real é a autoprodução do inconsciente, o resultado das sínteses passivas do desejo. Realidade = Conatus (lembremos de Giordano Bruno, 1588, dizendo que o Cupido é o inferior e o superior, o novo e o antigo, o cego e a visão, porque ele conecta todas as coisas, ou dito de forma imanente, todas as coisas se conectam porque amam, têm abertura e no processo de amar, desejam se transubstanciar no objeto amado). O desejo e seu objeto são uma só coisa, a máquina desejante. Nada falta ao desejo, pois o sujeito fixo que falta ao desejo, afinal, ele só surge através da repressão. As necessidades também surgem do desejo, enquanto a falta é um contraefeito do desejo, produzido socialmente, ao invés de ser uma condição prévia do desejo (assim como em Marx, não se pode começar da escassez, pois a naturaliza, como se ela fosse anterior à exploração, como refletido na crítica de Clavel, 1970, a Sartre, argumentando que nenhuma filosofia marxista pode começar com o conceito de escassez). A organização molar (as hierarquias e sua fixidez) realiza a separação entre desejo e real, criando a ilusão de uma falta. É assim que funciona o mercado: a falta é organizada em meio à abundância da produção, criando um medo da falta e vinculando o desejo a algo isolado, o mundo do passado. Obviamente, máquina desejante (individual) e máquina técnica (social) conservam distinções, mas de grandeza, reproduzindo tanto o desejo de grupo (realidade social) quanto, na verdade, produzindo novos desejos que se opõem à realidade social estabelecida, mas em ambos os casos não há uma diferença de natureza, mas de regime.
As máquinas técnicas (a Terra, o Despota e o Dinheiro) se baseiam em um princípio de distinção clara entre meio de produção e produto, onde o valor é transmitido ao produto pelo desgaste da máquina. Já as máquinas desejantes são desarranjadas e a produção já está no produto, com as peças da máquina também servindo como combustível, só operando de forma desarranjada. Elas não distinguem entre agentes, peças, relações de produção ou socialidade e tecnicidade. São simultaneamente técnicas e sociais, produzindo a antiprodução de forma imanente. Já as máquinas técnicas só podem produzir a antiprodução de forma extrínseca, relacionadas à reprodução social, e dependendo de uma máquina social que as condiciona. A arte mesmo é um campo onde artistas criam fantasmas de grupo que curto-circuitam a produção social com a produção desejante, por exemplo, violinos queimados (Armand Fernandez), carros comprimidos (César Baldaccini), paranóia crítica (Salvador Dalí) e falhas (Maurice Ravel). O artista busca acelerar destruições para integrá-los em sua arte, submetendo o desgaste ao desarranjo desejante. A máquina desejante pode assumir a forma paranóica, miraculante ou celibatária, minando as máquinas técnicas e introduzindo o desarranjo na reprodução social. Enquanto as máquinas técnicas buscam a estabilidade e a reprodução fiel, as máquinas desejantes prosperam na instabilidade e ruptura.
A produção desejante é o lugar do recalcamento originário, a produção social é o lugar da repressão e entre elas há um recalcamento secundário. O desejo pode desejar a repressão, pois tanto a produção social quanto desejante são uma única produção (a produção do real). A máquina territorial primitiva codifica os fluxos do desejo de forma básica, a máquina despótica introduz uma sobrecodificação que regula os fluxos e o capitalismo descodifica e desterritorializa os fluxos, fornecendo não um código, mas uma axiomática baseada em quantidades abstratas (como o dinheiro). O capitalismo nasce do encontro de 2 fluxos descodificados: capital-dinheiro e trabalhador livre. Mas para manter seu controle, ele impõe uma violenta repressão, desfazendo o socius em nome do corpo sem órgãos. A máquina territorial produz a histeria, a máquina despótica produz a mania depressiva e a paranóia e a máquina capitalista produz a esquizofrenia, que é uma ruptura com os códigos estabelecidos. O próprio Jaspers (1922) questiona se a loucura não é uma condição de sinceridade em meio a um mundo cada vez mais incoerente (a loucura não é algo que se pode buscar conscientemente).
O capitalismo descodifica os fluxos (dinheiro, trabalho, etc) e desterritorializa o socius (organização social), se aproximando de um limite esquizofrênico onde os fluxos são liberados. A esquizofrenia não é uma patologia individual, mas um processo social relacionado à falência dos códigos e à discordância crescente na sociedade. Mas o capitalismo reterritorializa territorialidades ficitícias (transcendentes), como o Estado, as pátrias e a família, absorvendo e reciclando elementos do passado através de aparelhos burocráticos e policiais, absorvendo uma parte crescente da mais-valia. O real no capitalismo é cada vez mais artificial.
Há o neurótico, o perverso e o psicótico. O neurótico se instala nas territorialidades residuais do capitalismo, como a família, o Estado e o consultório, organizado através do processo edípico. O perverso percebe que as territorialidades são artificiais e por isso cria novas famílias, sociedades secretas e outras estruturas ainda mais artificiais do que as propostas pelo socius. O psicótico (esquizofrênico) vive em um estado de desterritorialização constante, migrando, errando e escorregando em direção ao infinito da decomposição do socius. O esquizofrênico é todos os códigos e nenhum deles, em contato com o demoníaco na Natureza e com o processo histórico de produção social, restituindo a autonomia nas máquinas desejantes. Assim, temos o conceito de psiquiatria materialista como produção de desejos, estabelecendo as relações entre a máquina analítica (psicanálise), máquina revolucionária (luta pela liberação dos fluxos de desejo) e máquina desejante (produção autônoma do desejo).
Uma máquina é um sistema de cortes que opera em fluxos materiais continuam. Esses cortes não separam a realidade, mas extraem partes de um fluxo contínuo. Por exemplo, a máquina-ânus corta fluxos de merda da máquina-intestino (que por sua vez corta o fluxo da máquina-estômago, que corta o fluxo da máquina-boca, que corta o fluxo do rebanho), a máquina-boca corta fluxos de leite, ar e sons e a máquina-pênis corta fluxos de esperma e urina. Os cortes são a condição da continuidade, todo fluxo pode ser cortado (o discreto é a condição para a continuidade da continuidade). Em relação à máquina que a corta, a máquina é fluxo; em relação à maquina que ela corta, a máquina é corte de fluxo. Toda máquina está disposta em uma cadeia onde ela é simultaneamente corte e fluxo. Essa é a lei da produção de produção. O objeto parcial, resultado do corte, e o fluxo contínuo, se confundem. O desejo emerge desses cortes de fluxo.
Toda máquina desejante comporta um código que é maquinado e armazenado nela. Esse código está ligado ao registro e à transmissão de informações por todo o corpo, o que forma um quadriculado de disjunções. Lacan (1956) descobriu o código do inconsciente, envolvendo cadeias significantes, mas o código do desejo não se reduz a uma cadeia única, além dele ser aberto: o código do desejo é mais parecido com um jargão do que uma linguagem estruturada, e os signos não são propriamente significantes, pois operam em todos os níveis e conexões, sem um plano fixo. Os signos não têm vocação para serem significantes, mas para produzir desejo. As cadeias de signo misturam fonemas, morfemas, imagens e outros fragmentos de outras cadeias, e como cada cadeia captura fragmentos de outras cadeias, há uma mais-valia de código apropriada. Como registros e transmissões vindas de códigos internos e externos em vias ramificadas, se forma uma grande síntese de disjunções, que faz coexistirem múltiplas cadeias e signos. A escrita do desejo é transcursiva (não-linear) e opera no Real, compondo e decompondo cadeias em signos que não têm vocação para serem significantes. O real é inorganizado, pois as sínteses passivas operam sem a presença de um Significante central. Essas cadeias funcionam como as cadeias de Markov, cadeias estocásticas que dependem apenas do estado atual, não do passado.
Há 2 tipos de corte: corte-extração, que incide sobre fluxos contínuos e produz objetos parciais, e cortes-desligamento, cadeias heterogêneas que operam através de segmentos destacáveis (como tijolos móveis ou blocos voadores). Os tijolos móveis são compostos por elementos heterogêneos (signos, figuras, miudezas, cadáveres) e são emitidos à distância. Por que o nome “corte-desligamento”? Pois o Significante despótico tenta ordenar a cadeia de signos em linearidade ou biunivocidade para controlar essas cadeias, mas o esquizo as desliga e as conecta em novas configurações. Os tijolos móveis são peças das máquinas desejantes e são componentes e produtos de decomposição, ou seja, registros que se deslocam e recombinam, fornecendo novas sínteses. Esses tijolos não estão fixos: eles sempre operam em relação à máquina cronógena (sistema nervoso), que não tem localização espacial. De onde vem os tijolos móveis? Da teoria neuropsicopatológica de Monakow e Mourgue (1928), incorporando o desejo na neurologia (o desejo como realidade ontológica). Isso porque, de forma fragmentada, as lesões se estendem para outras regiões e mesmo o humor afeta a região nervosa através de processos não-lineares. Ou seja, tijolo móvel = fragmentação e desligamento, impedindo qualquer centralização linear dos fluxos de desejo, indo além do jacksonismo (a teoria de John Hughlings Jackson), que focava na dissolução das funções nervosas hierarquicamente organizadas – não só a destruição das funções neurológicas é fragmentada, não-linear, imprevisível e irreversível, como criativa/produtora de desejo.
O terceiro tipo de corte maquínico é o corte-resto, que produz um sujeito como resíduo, uma parte de partes do corpo sem órgãos. O sujeito é tanto desligamento quanto extração de fluxos, consumindo os estados e nascendo a partir desses estados (como Marx notou sobre a realidade do consumo, ou cujo processo de procurar-separar-engendrar-se Lacan, 1960, denominou de estado civil). Percebemos, então, que a síntese conectiva era um corte-extração, a síntese disjuntiva era um corte-desligamento e a síntese conjuntiva era um corte-resto. O bebê extrai leite, arrota desligando a cadeia significante e o sujeito é produzido como resíduo.
A produção desejante é multiplicidade pura, onde os fragmentos e as partes não buscam retornar a uma totalidade original ou produzir uma nova totalidade que seria imposta indiferentemente a todos os indivíduos. Deleuze e Guattari, ao contrário, defendem uma totalidade que não unifica (tira a autonomia radical) as partes, mas coexistem com elas como uma nova parte. Ou seja, a totalidade é não uma parte coesa e imutável, mas um elemento de recombinações, como quebra-cabeças que podem ser combinados de diferentes formas e dão origem a novas formas (como exemplificado por Proust). Ou seja, o todo nunca deixa de se comunicar com as partes, criando comunicações aberrantes/transversais, que é um locus de somas transfinitas e inscrições plurívocas. Ou seja, o corpo sem órgãos funciona como essa totalidade ao lado das partes, onde os cortes funcionais dos objetos parciais se encontram com os cortes das cadeias significantes e do sujeito. Os aminoácidos, por exemplo, mesmo quando formam um todo, preservam suas diferenças.
Melanie Klein (1932) foi importante ao identificar a centralidade dos objetos parciais (explosivos, rotativos, vibracionais) no inconsciente, mas os interpreta como fantasmas, ou seja, consumo isolado (frustração, gratificação, introjeção, projeção), ao invés de um processo real de produção. Além disso, Klein compreende os objetos parciais como remetendo a um todo. Para Klein, os objetos parciais são extraídos de pessoas globais (Papai-Mamãe-Eu), enquanto para Deleuze, eles têm o poder para explodir Édipo. Não se trata de conceber a importância do período pré-edipiano para o período edipiano, mas o próprio caráter anedipiano da produção desejante. Klein interpreta os brinquedos de uma criança, como trens, como representações dos pais, reduzindo a lógica dos objetos parciais a uma estrutura familiar. Assim, os psicanalistas realizam uma espécie de terrorismo técnico que obriga o paciente a sempre responder “papai-mamãe” quando lhe for dirigido.
Ao contrário, os objetos parciais (seio, trem, estação) não são representações de pessoas globais (papai-mamãe), mas peças das máquinas desejantes, produzidos por extração em fluxos não-pessoais de matéria, e se conectando a outros objetos parciais no processo de produção. O inconsciente é impessoal, ele ignora as pessoas. Os objetos parciais são agentes de produção e distribuidores de relação, não suportes de relações familiares. A criança não vive os objetos parciais como representações dos pais, mas como partes de máquinas que produzem fluxos (leite, urina, sons, etc). Quando a criança associa os objetos parciais (como o seio) à mãe, isso é uma inscrição no Numen, que retroage sobre o processo de produção. A própria ruptura de Jung com Freud ocorreu quando Jung observou que na transferência, o psicanalista poderia aparecer como deus, diabo, feiticeiro ou outras imagens além das parentais. No entanto, ambos ainda concordam que a libido não pode agir sem mediação, como se o desejo não fosse diretamente social, justificando uma atitude autoritária/vanguardista/representativa, onde o inconsciente, para Jung (1953), ainda é visto como uma casa de mitos (arquétipos), e não como produção desejante: Jung substitui uma ficção (Édipo) por outra (inconsciente coletivo). Enquanto Jung vê os mitos como prova de que o inconsciente é espiritual e portanto o ser humano busca a unidade com o divino, Freud vê os mitos como expressões de pulsões primárias biopsicológicas. Isso não foi uma antipsicanálise, mas expressão do próprio fato de que a Igreja estava começando a se utilizar da psicanálise, apesar do ateísmo de Freud.
Jung, Rank (1924) e Lacan tentaram encurtar o Édipo, argumentando que a falta se dá no trauma que é nascer e ter contato com a realidade da vida e morte, mas isso reduz a experiência a um ideal transcendental que representa mas não produz: a cura não está no passado, mas no mapeamento do desejo no presente, sem reduzí-lo a fantasmas familiares. Enquanto a pergunta psicanalítica envolve reagir nosso Édipo contra a exploração, a esquizoanálise pergunta-se como o desejo corporal pode explodir as prisões.
A criança é um ser metafísico que questiona o sentido da vida, da existência e da identidade: eles perguntam o que é respirar enquanto respiram, sem qualquer relação com os pais. A psicanálise comete um terrível engano ao interpretar essa pergunta sendo feita aos pais como evidência de que essa pergunta está relacionada aos pais. O inconsciente é órfão, não dependendo dos pais para se produzir, se autoproduzindo na identidade Natureza=humano=indústria. O próprio D.H. Lawrence (1921) reconhece que a psicanálise tenta reduzir a sexualidade a uma repressão, e não a compreende como própria produção de desejo. A psicanálise, ao reduzir a loucura a um complexo parental e culpar a própria maneira como o sujeito internaliza Édipo, completa a repressão psiquiátrica do século XIX. Foucault (1976) já havia mostrado que, no século XIX, a sociedade burguesa confiou às famílias o papel de avaliação da responsabilidade e culpabilidade de seus membros, e a psicanálise foi a primeira estrutura a legitimar (naturalizar) tal configuração social.
REFERÊNCIAS
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