Assalto aos Veículos Metabólicos
O corpo marginalizado é um veículo metabólico, invadido, possuído, abandonado. Ele é atravessado por referências históricas, filosóficas e técnicas que visam desmontar a ideia de razão como superioridade ou emancipação. A razão é um instrumento de morte, colonização e domesticação, uma geometria do dominador. Crianças abandonadas, atores secundários, animais de carga, corpos racializados, mulheres privadas do voto e loucos tratados com eletrochoque são comparáveis por um motivo: todos são corpos sem razão, ou seja, corpos que aos olhos da sociedade moderna não têm direito à autodeterminação, à expressão ou mesmo à dor. São casas vazias, habitações de inquilinos estranhos, sempre prestes a serem tomadas — pelo médico, pelo diretor de cinema, pelo Estado. Há uma motricidade liberal (razão, invasão, controle, geometria) e motricidade mecânica (trabalho manual, corpo sem alma, animalidade). O corpo produtivo é valorizado apenas como força cinética bruta — e quanto menos alma ele...