Assalto aos Veículos Metabólicos
O corpo marginalizado é um veículo metabólico, invadido, possuído, abandonado. Ele é atravessado por referências históricas, filosóficas e técnicas que visam desmontar a ideia de razão como superioridade ou emancipação. A razão é um instrumento de morte, colonização e domesticação, uma geometria do dominador.
Crianças abandonadas, atores secundários, animais de carga, corpos racializados, mulheres privadas do voto e loucos tratados com eletrochoque são comparáveis por um motivo: todos são corpos sem razão, ou seja, corpos que aos olhos da sociedade moderna não têm direito à autodeterminação, à expressão ou mesmo à dor. São casas vazias, habitações de inquilinos estranhos, sempre prestes a serem tomadas — pelo médico, pelo diretor de cinema, pelo Estado.
Há uma motricidade liberal (razão, invasão, controle, geometria) e motricidade mecânica (trabalho manual, corpo sem alma, animalidade). O corpo produtivo é valorizado apenas como força cinética bruta — e quanto menos alma ele tem, mais útil ele é. Mas esse mesmo corpo sem alma se torna perigoso quando deixa de obedecer, quando assume a própria movimentação — como o cavalo que toma o freio nos dentes ou o louco que resiste ao tratamento.
A tradição marxista e psicanalítica ainda mantém resquícios do racionalismo, por manter a hierarquia entre corpo e razão. A razão não é libertação, mas apropriação — uma técnica de pirataria que invade corpos disponíveis. O delírio e o vício, tratados como falhas que devem ser corrigidas, são formas de resistência cinética, expressões nomádicas de uma subjetividade recusada.
O corpo sem razão, o corpo abandonado, é também o campo de disputa de inteligências em trânsito — como a metempsicose antiga, ou como o domínio colonial moderno. Esse corpo que “não sofre” (como o animal no set de filmagem, ou o louco no hospital) só pode ser controlado pela dor, pelo choque, pela disciplina. No fundo, tudo gira em torno do controle da mobilidade: quem se move por conta própria ameaça o império geométrico da razão.
Razão e técnica não libertam, mas ocupam, invadem, colonizam. E nesse sentido, a luta expressão, ou mesmo por movimento próprio (como no exemplo dos negros americanos ou das mulheres) não é apenas uma luta por direitos, mas uma luta contra a possessão — contra a lógica de corpos-objetos, contra o piloto automático da razão colonizadora.
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