Pós-pornografia: uma introdução
Fucking Freaks Club é um curta-metragem pós-pornográfico de 19 minutos que retrata, antes de Nicky fazer a transição hormonal, uma sociedade pós-gênero onde somente há monstros, com alter-egos hiper-binarizados e totalmente condicionados pela feminilidade. No final, 2 não-bináries se encontram como compatíveis e acabam tendo um hiper orgasmo. É um filme com elementos de comédia, terror e efeitos visuais imersivos, destinando-se a acabar com a reprodução mecânica e estereotipada da pornografia, baseada na construção patriarcal da idéia de puta, que instiga vergonha nas mulheres, substituindo por uma crítica social que não reduz o sexo a garganta profunda, boquete, posição de 4 e posição missionária, explorando o não-convencional e acabando com a artificialidade cinematográfica da pornografia – que inspirou os sexos reais desde os anos 60 ou antes. É uma produção pedagógica que visa educar nossos desejos e não secundarizarmos o repulsivo, como faz a pornografia mainstream nas mulheres – pois uma vez que o repulsivo é eliminado (e não falo somente do que é nojento, mas do próprio autocontrole que nos leva a cessar determinada atividade e que é fundamental para a manutenção da vida), somente há vício. Em produções para o Lustery, ambos discutem como gravar uma determinada cena, cheiram um ao outro, sorriem, falhas não são cortadas, a nudez não explícita é explorada, discutem sobre aspectos de suas vidas pessoais (e até mesmo perguntam sobre algum machucado) e ambos conversam muito mais em relação às produções pornográficas mainstream.
É comum, também, obras pós-pornográficas serem acompanhadas com musicais teatrais, não terem o corte de cenas realmente fofas e românticas e terem uma conclusão decente (como humor, satisfação, diversão, etc), ou nem mesmo terem sexo – o elemento surpresa é o que vale, a criatividade é a única métrica, e criatividade (ou diversão) significa subversão. Na pós-pornografia não há lugar para se sentir envergonhad@, uma vez que o social já não dita o que é adequado para se produzir – é a abolição da privacidade enquanto privatização da vergonha e da auto-aceitação, pois a verdadeira auto-aceitação é pública (é uma transformação dos prazeres e da maneira como se olha para eles). O filme Period Chaos retrata um vampiro que caça um homem trans, pois ele está em seu período fértil e o vampiro se sente atraído. Não é incomum que tais filmes pós-pornográficos sejam totalmente queers. Em obras pós-pornográficas, se utilizam, geralmente, fantasias, que se adequam totalmente ao gênero da produção – não é algo grosseiro e meia-boca como as mal feitas fantasias de coelhinho, mamãe Noel e Arlequina da pornografia mainstream –, fidedignas em gênero, como fantasias de Grinch ao cafona, fantasias realmente bizarras ao gótico e fantasias realmente horripilantes ao terror. É a extensão do teatro da vida por outros meios. A consensualidade, democracia direta, alteridade (ética), solidariedade, liberdade, criatividade, sustentabilidade, diversidade e empatia são aqui os valores dominantes. A pós-pornografia é indissociável do nomadismo e do nudismo radical. A pós-pornografia é anti-capacitista, anti-monogâmica, anti-psicofóbica e anti-normativista estética – não é incomum que em produções pós-pornográficas, o sexo ocorra em paralelo a outras atividades, de modo que no jogo sexual até mesmo o cabelo entra como sujeito da equação. A única regra é não ter regras, é quebrar as regras: abolição da moral e Übermensch. De tão ativista que é, incorporar a pós-pornografia aos ditames mercadológicos é totalmente o contrário de sua essência.
Annie Sprinkle, popularizadora da pós-pornografia (termo criado por Wink van Kempen para se referir às paródias e críticas da pornografia), tem uma apresentação chamada Public Cérvix Announcement, onde ela ensina sobre o aparelho reprodutivo feminino e deixa a platéia explorar sua vagina com um espéculo (parodiando o misticismo que existe em torno da vagina) – não é incomum que a pós-pornografia ensine a homens e mulheres sobre prazer.
A pós-pornografia subverte o conservadorismo anti-pornográfico que, ao denunciar corretamente a pornografia mainstream por todos os seus problemas, não reconhece a pornografia como atividade pedagógica e forma de arte em si mesma (uma arte dadaísta e patafísica) que nos ensina a conhecer as diferenças. A pós-pornografia é uma combatente na luta pela educação sexual contra o mainstream, dotado de sua cultura inerente do estupro e pedofilia. Não há diferenças perceptíveis entre sexo e matemática, uma vez que ambos são o exercício máximo da atividade da imaginação: e se Lakatos atribuiu um status científico à matemática, não há porque não atribuir ao sexo também. Ambos também são profundamente semióticos; o sexo é interétnico e multilinguístico, é, na verdade, um espaço de desenvolvimento (ciber)cultural (sim, o websexo pode ser enquadrado dentro da pós-pornografia). O ensinamento da pós-pornografia, como extensão do teatro do oprimido, é que sexo é muito mais do que sobre sexo, que o prazer genital ou talvez mesmo o próprio prazer é apenas um tipo específico de sexo. Não há pós-pornografia que não explore outras áreas do corpo e mesmo a percepção – o Femtasy e Le Son du Désir, que exploram a pós-pornografia sonora, são algumasdessas plataformas.
Na plataforma Lustery, você não é pag@ por quantidade de views, e há regras estritas para garantir que a pornografia seja realista (por exemplo, apenas casais reais devem filmar vídeos e luz artificial é banida). As categorias são as mais diversas possíveis, não refletem apenas fetiches. Por fim, o que a pós-pornografia reconhece é que todas as áreas da vida estão sexualizadas, e por isso precisamos fazer uma linha de frente em todas elas – por isso a linha política da pós-pornografia é internacionalista e anti-capitalista, defendendo a autogestão generalizada, e ainda implicando na abolição da pedofilia, pois as crianças são, na verdade, o sujeito mais explorado do capitalismo.
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