Heidegger e o Nazismo
A adesão de Heidegger ao NSDAP e o seu papel como reitor da Universidade de Friburgo em 1933-1934 (além de A Essência da Verdade, onde ele diz que o tema é “a verdade interior e a grandeza do Nacional-Socialismo”, uma leitura peculiar do mito da caverna em analogia com a distância entre a vida cotidiana e a vida do filósofo que acessa os reinos transcendentes do pensamento e a alegoria como o despertar da essência do homem, embora seja um escrito apolítico em sua maior parte, assim como A Doutrina da Verdade de Platão, sem qualquer discussão sobre a relação entre filósofo e Estado) levaram a um debate intenso em muitas épocas e lugares (Richard Wolin, Victor Farias, Hugo Ott, Hans Sluga), sendo a historiografia do final da década de 1980 apenas a mais recente.
Se quisermos avaliar honestamente essa questão, devemos notar que o envolvimento político de Heidegger vai além da mera pertença ao NSDAP e sua compreensão da política de forma mais geral – os nazis rejeitaram qualquer filosofia particular, muitos filósofos tentaram formular uma filosofia do nazismo de formas incompatíveis mutuamente, como nota Sluga.
Grande parte da literatura exonera Heidegger separando filosofia e biografia, ou simplesmente condenam o seu pensamento por causa das ações (apesar do estudos posteriores sobre o envolvimento de Heidegger com o nazismo analisando os black notebooks), mas Sheehan nota que a própria filosofia de Heidegger é tão interdependente com a sua compreensão política e histórica (que é dada independente do seu apoio ao NSDAP ou defesa de Hitler) que ela é limitada pelas compreensões limitadas que Heidegger tinha acerca destes temas.
Assim, Derrida analisa o uso da palavra Geist, Bambach foca na autoctonia, Janicaud e Beistegui são mais gerais, Young sugere que Heidegger é compatível com a democracia liberal e Nolte diz que o nazismo era a única solução para os problemas que Heidegger via na sociedade. A política em Heidegger não é positiva, ela é cética – apesar de suas invocações reacionárias do campo e olhar tecnofóbico. A concordância de Heidegger com o nazismo está na questão linguística, que se caracterizava por repetição desenfreada de estruturas linguísticas a serem assimiladas pelo inconsciente. Gillespie nota que Heidegger não tinha dúvida que seu pensamento jovem era compatível com uma versão idealizada do nazismo e que porém não via nenhuma alternativa política satisfatória (seja o americanismo ou bolchevismo).
Podemos investigar a questão por 3 vias: 1) por que Heidegger se filiou ao NSDAP? 2) por que Heidegger acreditou em seu potencial? 3) por que Heidegger acreditou que na prática o nazismo falhou?
A redução do mundo à calculabilidade, à mensurabilidade, é o mal-estar moderno, e o nazismo é o seu sintoma mais óbvio, o mais alto nível do capitalismo. De fato, as questões candentes a Heidegger são o Logos (que, em uma autocrítica, afirma que é a lei que estrutura as relações), o Polemos e o Arithmos. O Espírito vira mera inteligência reduzida ao cálculo e exame, que leva à regulação e dominação das condições materiais de produção (o que ele correspondia ao marxismo), ordenamento racional de todo o presente (positivismo) e regulação da organização vital e espiritual de um povo (inomeado, mas provavelmente o nacional-socialismo), além da simultaneidade de tempo de eficiência máxima.
Heidegger diz que a dominação da cosmovisão, i.e, imagens do mundo, é uma consequência da metafísica moderna, pois nasce em Kant a partir dos trabalhos de Leibniz, e irá ocorrer um transporte da medicina para outros domínios através dos nazistas, o mundo como tumor, ferida ou doença, razão pelo qual eles tinham uma cosmovisão e não uma ideologia. Heidegger nota que nem o nacional-socialismo nem Nietzsche podem lidar com o problema da tecnologia ou do niilismo, dizendo em 1940, após a derrota da França, que não bastam novas máquinas, mas novos homens. Kant está em continuidade com Descartes na medida em que sua metafísica da natureza é uma res extensa e sua metafísica da moral é uma res cogitans.
A única vez que Heidegger tocou em uma questão política antes de 1933 foi quando, em 1930, em Sangue e Solo, onde iguala verdade e autoctonia, trabalho que Bambach mostra ser crucial para seu pensamento, e o curso de 1931-32, onde comentou sobre o desemprego e a incapacidade de qualquer solução técnica para o problema e onde nota que a aletheia pode ser história para nós apenas com um sério engajamento com a essência da verdade. Para Heidegger, a sophia não é o meio de acesso ao político, mas a phronesis, negando a doutrina platônica de reis-filósofos e politeia, mas então acaba oferecendo seus serviços como filósofo do Estado, sendo uma autocontradição. Mas Heidegger não defendia a submissão do filósofo ao Estado, mas a submissão do Estado ao filósofo, que traria medida e regra às suas decisões. E embora pareça autocontraditório com a phronesis aristotélica, Heidegger diz que os habitantes da caverna estão sendo libertados da aphrosune, a ilusão, sendo condição para que haja phronesis que é o exato contrário, sophrosune, mas diz que Aristóteles acaba reduzindo a phronesis e que em Platão se refere ao conhecimento em geral, para apreender o verdadeiro, realizar circunspecção e discernir em relação ao mundo e a si mesmo. A liberdade aparece aqui não como libertar-se das algemas, mas não lutar contra a verdade. Heidegger disse que apenas após a noite das facas longas que poderíamos agora saber com qual nazismo estamos lidando.
Heidegger não está interessado em verdades como X=Y pois isso é uma verdade particular (pois só podemos fazer uma afirmação de que X=Y depois de sairmos da caverna e ser nos oferecida uma revelação de que X=Y, literalmente o reino das idéias, que é o despertar da essência do homem e que por isso não é uma proposição sobre o ser, mas o próprio ser, e a proposição sobre o ser apenas descreve o que já foi revelado), uma correção, nem algo como "amigo verdadeiro" ou "ouro verdadeiro". Para superarmos essas visões, temos que superar a visão da essência como universal, o que-ser, preocupado com o que é a verdade, o que nos leva a uma história do conceito de verdade: para os medievos, a verdade era comensurabilidade e a essência era a universalidade do gênero. A palavra grega para verdade é aletheia, uma negação de lethe. Para Heidegger, a liberdade é a essência da verdade.
Após se filiar ao NSDAP, sua A Autoafirmação da Universidade Alemã não fala apenas de uma missão espiritual como destino do povo germânico mas seu papel (e da própria universidade) como líder espiritual que educaria líderes e guardiões do destino do povo alemão, a Grécia que para apreender a totalidade do Ser necessitou de uma língua particular e um caráter nacional e a glória e a grandeza do novo começo.
Em Floresta Negra, se dá muito mais atenção ao caráter nacional e a liderança política e espiritual são vistas como inseparáveis/hifenizadas (e mais tarde, em A Questão Fundamental da Filosofia, irá igualar vontade, disciplina e educação), com inúmeras invocações de povo, decisão, determinação, luta, Estado e comunidade (esses 2 últimos sendo termos que Heidegger sempre evitava utilizar, mas agora usados de maneira componível como em Volksgemeinschaft), solo e sangue do povo, vontade de grandeza e Volksgenossen, termo nazista que se referia aos seus companheiros ideológicos, com a única citação a Platão sendo uma tradução anacrônica, interessada e distorcida. Também há uma utilização da distinção de Ernst Jünger sobre serviço de trabalho (trabalhar pelo Volksgemeinschaft), serviço militar (trabalhar pelo destino da nação ao lado de outros povos) e serviço de conhecimento (missão espiritual do povo germânico), sendo os 2 primeiros aspectos enfatizados pelo nazismo e o terceiro como aspecto particular de Heidegger (rompendo com O Que é Metafísica, onde via o serviço como limitado na formação de lideranças). Heidegger aqui troca Geschick no caso do Volk coletivo por Schicksal, que embora se refiram a destino, o primeiro se refere ao destino da comunidade e o último ao destino do indivíduo, de modo que Geschick agora é reservado para falar sobre a nação, e agora o Dasein se aplica a todo o povo germânico.
Liberdade agora é definida como estar livre para a dedicação espiritual que é o destino do povo germânico, que são os serviços enumerados por Jünger, a missão espiritual seria a luta e a educação obtidos ao se inscrever em um curso do Reich, discursando aos que participavam de programas de desemprego.
Heidegger homenageia Schlageter (morto por sabotar os franceses), apoia os discursos de Hitler sobre o plebiscito acerca da saída da Liga das Nações (que funcionou como um referendo acerca do controle nazista como um todo), fez com que a Horst-Wessel-Lied fosse cantada em eventos cerimoniais, se refere aos mortos da guerra como sacrifícios patrióticos para o destino do povo germânico, apoiou as Gleichschaltung (enviando até mesmo um telegrama a Hitler) e implementou políticas universitárias antissemitas. Mas A Autoafirmação da Universidade Alemã é explicitamente contra qualquer homogeneização. Porém, em apoio ao plebiscito, Heidegger diz que “a revolução nacional-socialista está a provocar a transformação total do nosso Dasein alemão” e que “só o Führer é a realidade alemã presente e futura e sua lei”.
Em A Questão Fundamental da Filosofia, Heidegger falará sobre a liderança vir do poder da determinação, cuja missão espiritual exige educação e que a filosofia era a questão da lei e da construção do nosso ser (ou seja, a filosofia é única para cada povo), ou seja, busca pela essência e pelo ser dos seres, criando um novo Dasein grandioso. Ele argumentará contra Hegel que o povo alemão nunca teve uma metafísica, mas que a conquista de uma metafísica é seu destino. Vemos aqui Heidegger sempre preocupado com a política, embora o aspecto ontológico pareça independente das considerações políticas de Heidegger, coisa que não acontece no volume II ministrado 2 anos depois, onde se investiga a decisão e sacrifício, destino e coragem e a essência que é usada para analisar a essência do povo, Estado, trabalho, mundo e Dasein humano. Ele inicia com o polemos de Heráclito que governaria tudo, que é traduzível como luta (Kampf), pois não é o confronto entre 2 adversários amigos, agon, mas 2 inimigos, de modo que o inimigo é prejudicial à existência do Dasein do povo, e a essência do Ser é polemos, que envolve decisão, vitória e derrota. Entender a vida como luta remonta ao Mein Kampf e o foco no inimigo se deve a Schmitt, que deu uma cópia de O Conceito do Político a Heidegger e Heidegger o coloca como alguém que compreendeu o polemos. Mas ao contrário de Schmitt, ele não atribui nenhuma identidade ao inimigo. Para escapar de uma visão bélica, Heidegger diz que na verdade com polemos está querendo dizer discórdia, eris em grego, traduzindo como Auseinandersetzung para evitar confusões (porém, no curso sobre Hölderlin, usa Feindseligkeit, que novamente se refere a uma inimizade). E para a defesa de Heidegger, sua leitura de Heráclito provém de 1932, antes de seu engajamento com a política.
Ao discutir sobre a linguagem e o logos, Heidegger critica o liberalismo mas que não podemos declarar sua morte tão rapidamente ou caso contrário estariam sujeitos a possibilidade de um nacional-socialismo liberal. Ao falar sobre o governo, Heidegger abandona os seus alertas contra traduzir a Politeia como Staat. Heidegger se alinha a 3 teses nietzscheanas: (1) anti-humanismo, (2) contra o cristianismo sem raízes e (3) anti-iluminismo. O nazismo forneceria a luta necessária para combater a emergência.
Heidegger iguala o animal linguístico com o animal político e assim joga fora toda aquela precaução com passar do estar-com (Mitsein, pertencimento coletivo a uma comunidade política) para a comunidade, demonstrando sua ansiedade com a urgência da necessidade de filósofos se engajarem com a política.
Heidegger diz que quando Hitler fala em reeducação, não é mero slogan, mas “uma mudança total [Gesamtwandel], um plano mundial [Weltentwurf], na base uma educação de todo o Volk. O nacional-socialismo não é uma teoria antiga, mas uma mudança fundamental para o mundo alemão e, acreditamos, para o mundo europeu”. Quando Heidegger fala que seu Sangue e Solo é inadequado, não é uma autocrítica, mas uma mudança de enfoque (razão pelo qual ele ainda o acha importante). E essa mudança é o flerte com a vontade. Temos uma tríade interessante: sangue (biologia), solo (pátria) e vontade (poder).
Heidegger não é muito claro ao falar de grandeza. A Lógica Como Questão da Essência da Linguagem, que inicialmente deveria se chamar Estado e Ciência, aborreceu funcionários do NSDAP (e que Heidegger diz à der Spiegel ter sido reportado a Krieck, Bäumler e Rosenberg), só restando alunos de filosofia no curso, mas isso não marca um retorno de Heidegger às suas origens, pois a investigação lógica era um meio de acesso à política, e na verdade o conteúdo do curso era o povo, a comunidade humana, a natureza do nós e as determinações biológicas de raça, apesar de ser contra o determinismo biológico em Os Conceitos Fundamentais da Metafísica e contra a leitura biológica de Nietzsche (à der Spiegel, afirmou que esse curso era um confronto com o nacional-socialismo, junto com o primeiro de Hölderlin). Heidegger diz que sua defesa de que o espírito mundial por si só garante a grandeza do povo é contra a eugenia, mas isso entra em contradição com a afirmação de A Essência da Verdade sobre sangue e solo serem condições necessárias (porém insuficientes) para o Dasein. De fato, Heidegger, durante as férias de Natal de 1933-34, pensou em demitir-se alegando “que foi um erro acreditar que, a partir da posição espiritual básica que foi o resultado dos meus longos anos de trabalho filosófico, eu poderia influenciar imediatamente a transformação das bases – espirituais ou não espirituais – do movimento Nacional Socialista”. “Em retrospectiva, Heidegger considera que era óbvio que no seu ensino a sua “oposição aos princípios da visão de mundo nacional-socialista só iria crescer”. Ele continua a sugerir “que havia pouca necessidade de recorrer a ataques específicos; bastou-me expressar as minhas posições filosóficas fundamentais sobre a linguagem em contraste com o dogmatismo e o primitivismo do biologismo de Rosenberg”. Levando ainda mais longe estas afirmações controversas, ele sugere desesperadamente que apenas filosofar num clima de irreflexão era “por si só uma expressão suficiente de oposição ou resistência”.”
Heidegger diz que o povo não é o censo, uma resistência tanto ao cálculo quanto às fronteiras traçadas em 1919. O povo não é uma soma de entidades atômicas (uma concepção liberal, onde até mesmo o biologismo aqui é uma concepção liberal, pois está associada ao corpo, mas não ao espírito, e o povo é ambos), e essa compreensão calculativa remonta a Descartes: que separa ser humano e natureza e igreja e dogma; o corpo vira mera máquina do espírito e a natureza é tornada mecânica, que não vai dar origem ao caos, mas uma nova ordem, o Estado, com uma clara referência à Paz de Westfália, que ocorreu 7 anos após as Meditações Cartesianas e foi a primeira separação rigorosa de fronteiras, marcando a transição do pensamento europeu para o cálculo mecânico – o que guarda semelhanças com o ataque contra o tratado de Versalhes. Heidegger não ignora que existe raça, e Heidegger sugere que raça é tomada no mesmo sentido de povo, pois Rasse também é usado para descrever uma qualidade positiva do espírito, e o distingue de Rassisches, racial, no sentido de linhagem genética. Heidegger ora define povo como conexão com a geração, ou como relacionado ao logos (cuja linguagem é a determinação espiritual, que liga o povo à sua existência histórica). O ser do povo é a determinação como historicidade e temporalidade, e mais o logos, estes formam os 3 paradigmas que distinguem o ser humano e os animais.
Para Heidegger, povos sem história não têm futuro, apenas povos tradicionais (ou seja, ligados ao solo), citando como exemplo o nome pejorativo para os negros da África do Sul, os Kaffirs. A raça utilizada por Heidegger não é uma rejeição de Rosenberg, mas uma inversão, de modo que ele diz que a raça só pode ser essencial se determinada pelo humor. Heidegger denuncia pessoas que pensam no político ou racial e ignoram as raízes do solo que são a limitação de suas pretensões, as acusando de positivismo ou biologismo.
Heidegger em 53 posta uma palestra de 35 onde ele afirma que as filosofias não compreenderam a grandeza e verdade interna do nacional-socialismo, mas dessa vez com um parêntese que indica que isso era um comentário negativo (como nota Buchner, assistente de Heidegger), e que após se certificar de que a audiência estava acompanhando seu raciocínio, decidiu colocar aquilo para que as autoridades do NSDAP não percebessem, mas tudo isso é suspeito se notarmos que não há enumeração no manuscrito, e como nota Pöggeler, é característica distintiva dos Nazistas utilizarem "do movimento" ao invés de "desse movimento" ou "o nacional-socialismo", e na época ele parece alterar para a última opção, apesar do relato de Bröcker para qual Heidegger realmente falou "do movimento".
Chegamos à conclusão de que Heidegger não era contrário ao nazismo, mas alguns aspectos dele, e tinha uma versão própria, espiritual, do mesmo. A rejeição de Heidegger tanto ao americanismo quanto ao bolchevismo colocavam a Alemanha no centro das disputas entre ambos, questão central da política da época; era o país mais ameaçado. Heidegger se diz influenciado por Naumann, que advoga uma ideia da Alemanha como balança entre o Ocidente e o Oriente. O declínio da Alemanha não seria um declínio de uma cultura, mas o declínio metafísico do Ser.
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