Diário de um programador de dildos

O software livre (definido no Manifesto GNU como liberdade para executar o programa como desejar, a liberdade de acesso ao código-fonte para utilizá-lo e modificá-lo como desejar, a liberdade de redistribuir cópias e versões modificadas como desejar, sem precisar avisar ou pedir permissão a ninguém, depois modificadas por várias instituições e licença) foi a melhor tentativa que tivemos para combater a cultura capitalista, mas o seu problema foi ter sido formulado de maneira individual, não coletiva e transdisciplinar, derivados da egolatria de Stallman e das circunstâncias sócio-históricas (por exemplo, o fato de seus seguidores mais prolíficos serem americanos, não franceses). Hoje chegamos a um triste fato, onde o software livre depende do capital privado para se manter atualizado (lembro-me que aos 14 eu fui convidado a trabalhar com a equipe do KDE, e lá descobri um outro jovem prodígio programador de OCaml com 13 anos – triste fim do software livre!).

RedHat, KDE, SUSE, Google, Cisco, Amazon, Oracle – como um programador Haskell eu só tenho a agradecer a Micro$oft Research. Quando comecei a hackear, todos tínhamos ódio de todas as corporações – Microsoft e Google eram as principais –, circulavam-se vários vídeos dos Anonymous e vários cursos piratas da Pr1v8 e Koshimaru Kisara, tínhamos um ódio aos programadores por seu elitismo e desdém de nossa vida nômade e pirata (além disso, éramos marginalizados: tudo o que tínhamos para invadir eram sites PHP do governo, o banco de dados de nossas escolas, centrais de rádios locais do interior ou nossos modens, a partir de nossos próprios celulares, uma vez que eram poucos que podiam comprar um notebook ou sempre estar indo nas lan-houses – a gambiarra e a solidariedade informacional era tudo o que havia de presente) e tínhamos todos um sonho utópico de reproduzir Mr. Robot – script kiddle não era uma ofensa, sequer tínhamos identidade.

Éramos apenas malandros, nerds, moradores de periferia que começaram a ultrapassar o limite da curiosidade e muitas vezes vítimas de bullying, abuso ou qualquer outra situação que nos tornasse antissociais – a internet era onde a segunda vida recomeçava. Talvez seja difícil explicar a internet pré-IAs e pré-plataformização: era um lugar um tanto amador, uma terra de ninguém, um lugar sem poderosos, não só porque o inconsciente cibernético era anti-capitalista (ninguém queria que a internet se tornasse a reprodução das telas de TVs ou telões de marketing, poderíamos até dizer que a internet nesse tempo não tinha gênero, havia fluidez pura – os algoritmos eram constantemente transgredidos, pois o conteúdo postado era transgressão pura, era o tempo em que pastores diziam que a internet era do demônio pois jamais conseguiram atenção: pelo contrário, era um lugar perigoso para eles), como era o espaço da desterritorialização – ser famoso era pedir para ser hackeado, era a justiça anônima feita por si só.

Hoje em dia, se eu perguntar para algum entusiasta da FSF, jamais me dirão que o software livre está em crise, pois é verdade, não há nada mais triunfante do que o software livre egóico de Stallman – pois o projeto é moral, não necessita que seja eficaz, apenas que a pureza de princípios seja mantida (é nisso que acertam em denunciar os críticos da GPLv3, o sectarismo imutável de Stallman). É óbvio que todos estamos envolvidos na prostituição (argumentar que não seria tão absurdo quanto dizer que não somos organizados em família, e foi algo que Solanas já havia notado), mas há uma curiosa vontade de familismo (que não é prostituição) da FSF para com as grandes corporações – seu sonho é ser reconhecida por grandes corporações, é de onde tiram o lobby para comprar o GitHub: o sonho da FSF é um dia ter cada um de seus softwares comprados pela Google e Salesforce.

Grande ironia do destino: o software livre hoje em dia está em todos os lugares, até mesmo no Exército, e ainda me perguntam se estou louco quando digo que, de uma perspectiva foucaultiana, software livre e sexualidade são a mesma coisa. O FOSS é passivo, e portanto, ativo na repressão – o que seria do capitalismo se, nós, esquerdistas, não oferecêssemos as condições para sua flexibilização? Pois estou certo de que direitistas são um tanto tradicionalistas para se encarregarem de tal melhora do capitalismo – conseguem achar alguma diferença entre Stalin, von Neumann e Stroustrup? Eu não, e eram todos de esquerda (e por isso mesmo de direita), segundo o que aqui me consta. Pois eu vi a programação brasileira começar a ser destruída por um loiro branquelo que programa nos palcos. Para que empresas privadas se temos organizações sem fins lucrativos e ONGs?

Felizmente há uma salvação, pois se o software livre obteve sucesso teórico graças a Stallman, o software livre só existiu verdadeiramente enquanto efeito – nas ruas, entre anarquistas queer e ciberterroristas de gênero. Houve um momento de indiferença entre ambos, hoje em dia chegamos à autoconsciência: assaltemos a FSF como os revolucionários assaltaram a Bastilha!

Não há como abolir o autor sem abolir o programador – libertemos o programador das melhorias, correção de bugs e patches de segurança, não há mais proprietários de código. E não há abolição do programador sem abolição da ordem do discurso, a racionalidade calculatória e formalista que julga por gêneros taxonômicos antes de experimentar o conteúdo e se deliciar em sua profundidade, que institui quais indivíduos são biograficamente mais confiáveis e capazes.

Aliás, não existe mais programador, mas apenas alguém que programa um ATG pela manhã, um algoritmo de Djikstra pela tarde e um NLP pela noite enquanto fuma as páginas do Dragon Book e estuda o funcionamento das 7 camadas de um firewall com o cu e o útero. Faremos a grande Enciclopédia Universal (tal como Tretyakov pensou o jornalismo), distinta da Wikipédia, um grande Github (ou melhor, GitLab), mas sem a indiferença capitalista (a falsa expectativa de colaboração e o pequeno incentivo de uma “estrelinha”, que apenas fere o inconsciente imortal de Marília Mendonça). Portanto, não será a briga de licenças (BSD vs GPL vs MIT vs Apache) que resolverá a crise do software livre.

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