Ode a Paulo Arantes

O Novo Tempo do Mundo de Paulo Arantes é uma verdadeira revolução filosófica, mas por estar ligado inconscientemente aos situacionistas, é a articulação prática e concreta do cotidiano e do prospecto – como nos revela mais intimamente a sua tese sobre Hegel. Paulo Arantes é injustiçado ao não ser colocado como aquele que encerrou – isto é, delimitou corretamente – e deu origem a uma virada temporal da politica, em consonância com a virada geográfica transdisciplinar do geocriticismo e a virada ontológica transdisciplinar do realismo agencial. Paulo Arantes não apenas estabeleceu uma nova dimensão, ele transcendeu todas elas – pois em sua descrição temporal encontramos elementos espaciais, literários e psicológicos, e conceber de outra forma foi o que condenou teorias anteriores. Ninguém havia sido tão fiel a Marx nas terras de Pindorama – não apenas nos revelou a dimensão temporal da politica, mas nos deu um novo significado de tempo, com consequências ontológicas devido à sua não-linearidade, não-equilíbrio e historicismo. Longe de ser intelectualista, Paulo Arantes compreende que o cerne da política é a violência, e isso se reflete na sua própria poética realista.

Paulo Arantes não é niilista – seu novo tempo do mundo não é a celebração de um novo modo burguês pós-moderno de governar (uma ilusão adotada pelo FSM e BM que conseguiu sequestrar muitos autonomistas), mas a celebração da nova estratégia que devemos adotar (e nisso consiste o seu caráter anti-leninista, por ser tão cego e dogmático quanto suas frações que participam do mesmo teatro), revelando cada vez mais a urgência do projeto emancipador comunista e o freio às nossas mais cotidianas relações.

Paulo Arantes é como o Foucault de nossos tempos – a semelhança não está somente na careca, mas a sua capacidade de inaugurar campos novos que parecem perdurar por todos os tempos. Podemos falar de um marxismo pré-arantiano tanto quanto a grotesca metafísica pré-kantiana. Seus críticos, com suas externalidades características da pós-modernidade, apenas reafirmam seu ponto. O novo tempo do mundo engolirá o cérebro das gerações vivas e a excretará como a merda que a esquerda institucional sempre foi – a guerra em redes se impõe como uma resistência material dura.

Paulo Arantes não é um ortodoxo – pelo contrário, denuncia as vísceras do leninismo, com sua ideologia do progresso, da positivação do trabalho, do universalismo abstrato, sua doutrina da liberdade liberal e sua negação da criatividade e imaginação, enfim, da censura da consciência e espontaneidade em nome da burocracia. Seria um tanto irônico chamar Arantes de marxista, tendo em vista que o novo tempo do mundo nos convida a radicalmente pensarmos a realidade a partir dela mesma, e não de categorias dos anos 20 – é nessa conexão com o cotidiano, com a própria cultura, que se revela tão próximo dos situacionistas, mas também do autonomismo, incorporando a subjetividade do antropoceno. Paulo Arantes jamais cometeu o erro racista e insistente que os marxistas regurgitam: achar que a acumulação primitiva está finalizada. Se há um complemento a Dalla Costa, esse complemento é arantiano.

No entanto, como todo mundo tem seus defeitos, o defeito de Paulo Arantes foi ser pré-arantiano. Perdeu-se em seu próprio personagem. Porém, o reconheceu como produto de sua alienação de classe. A única maneira de honrá-lo é não ser arantiano. Compete a nós simplesmente virarmos a chave do novo pensamento político e superar a condição humana – isto é, o capital.

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