Colorir e Abolir ou Abolir e Colorir? Emergir, Expandir, Prescindir!

Introdução

Tem muito rei aí pedindo alforria, porque tá cada vez mais down in the high society. – Elis Regina
Antigamente eu achava que o gênero era extremamente positivo em partes por produzir, querendo ou não, maior diversidade de identidades, e por isso deveríamos levá-lo às suas últimas consequências antes de abolí-lo. Mas isso é uma maneira moderna de pensar, atribuir gêneros a identidades, sendo que reforçar isso apenas excluiria pessoas que não podem ser representadas nesse sistema – o que me chamou atenção para esse fato foi justamente a Denise combatendo idéias de levar a raça às suas últimas consequências.

Abolir a cultura=abolir a colonização

Nós lutamos pelo pão, mas também lutamos pela rosa. – Judy Collins
Denise quer abolir as culturas (afinal, o capitalismo é um sistema de diferenciais, sendo a divisão entre proprietário e não-proprietário apenas uma delas, levando a problematizarnos o capitalismo dentro do nosso próprio cotidiano e não mais o restringindo ao econômico, como se a luta de classes fosse algo distinta das opressões), o gênero funciona como uma cultura na medida em que é uma identidade determinada por um fato externo.

A gente deve aceitar a incomunicabilidade das culturas (ou seja, a sua não-divisão), igualmente dos gêneros, sem se dividir por conta dessas diferenças de cultura – que servem, inclusive, para a legitimação, seja passiva ou ativa, da violência contra tais povos. Assim como a antropologia pressupõe a colonização, falar de gênero pressupõe uma sociedade dividida – isso me chega ainda mais claro depois de ver que muitas das diferenças masculinas-femininas que eu considerava existirem há mais de mil anos, não terem mais de 300 anos, como me mostraram Federici e Yukazaki.

O futuro chegou aos quilombos, mas não à Flórida!

Deus salve a rainha, seu regime fascista. Não há nenhum futuro para você e para mim. Se não há nenhum futuro, pode haver pecado?. – John Lydon
Além do mais, uma crítica de Donna Haraway ao xenofeminismo me chamou atenção: não era bem uma crítica, pois ela afirmou que se preocupa mais com a urgência ecológica, o ambiente multiespécie, a justiça reprodutiva, o extermínio, a extinção, o desalojamento e a falta de moradia do que máquinas, robôs e o digital. Essa unidade só pode ser pensada, pela própria urgência do atual momento, indo além do ser humano, seja esse não-humano a natureza ou a sociedade do porvir, já que ambos estão em crise urgente – ou seja, a abolição do gênero é uma pauta urgente, para ontem, porque as condições exigem tal feito. Já estamos vivendo no futuro, como dizia Viveiros de Castro, e se não voltarmos logo, não haverá outro futuro. Como Denise é autonomista, o futuro que ela aponta não é uma mera oposição ao estado atual de coisas: é o convite radical para imaginarmos alternativas criativas que derrubem o estado atual de coisas, por isso, contra Eduardo Viveiros de Castro, Denise diria que devemos parar de subjetivar ou humanizar a natureza, pois é uma lógica que ainda opera dentro da modernidade.

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