Fourez - A Construção das Ciências: Introdução à Filosofia e à Ética das Ciências

Faz-se ciência sem se preocupar com o seu uso militar. Devemos responsabilizar a ciência e torná-la mais humana. Por isso, há a necessidade de formar cientistas-filósofos. Ao não ser ensinado a refletir, os cientistas apenas repetem o que ensinam a eles sobre a ciência. Logo, faculdades devem formar seres humanos completos. O interesse setorializado, focado em um só ramo, não tem qualquer sentido. Ele só adquire sentido quando olhamos no sentido global e histórico (por exemplo: qual o sentido de em plena guerra fria trabalhar como físico nuclear? obviamente não vai ser para aumentarmos a eficiência energética).

A ciência não é neutra. Eu já preciso ter uma ideia do que estou observando (assim, eu a teorizo). Se eu observo uma caneta caindo, preciso ter uma ideia do que é em cima e em baixo, assim como o que é uma caneta, sem falar das categorias de qualidade, quantidade, causalidade, etc (procure pelas categorias kantianas para saber mais). A observação nada mais é do que a organização da visão (organização esta que não é neutra, depende da minha cultura e das minhas experiências). E na medida em que me faltaria um conceito teórico adequado, sou obrigado a apelar a outros conceitos básicos: por exemplo, se quero descrever a folha que está sobre a minha escrivaninha e não tenho noção do que seja folha, farei uma descrição falando dessa coisa branca que está sobre a minha escrivaninha, sobre a qual parece que existem linhas apresentando uma certa regularidade e também certa irregularidade etc. De fato, a psicologia cognitiva refuta a ideia de que fatos podem ser apreendidos de maneira imediata (neutros). Segundo algumas teorias, algumas coisas são inobserváveis, para outras essas são observáveis e etc (por exemplo, na interpretação de Copenhague da mecânica quântica, sequer faz sentido perguntar sobre a trajetória de uma partícula, já que ela é totalmente aleatória, diferente da mecânica bohmiana que descreve trajetórias determinísticas não-locais). Além disso, não se pode observar sem utilizar a linguagem, seja verbal, seja mental (no pragmatismo de Peirce, todo pensamento é semiótico, i.e, todo pensamento é realizado com mediação da linguagem, e existem várias evidências de que a linguagem, como instrumento cultural, não é neutra, mas ideológica). E a língua já é uma maneira cultural de estruturar uma visão, uma compreensão. Cada vez que uma observação não concorda com uma teoria é sempre possível, mais do que modificar a teoria (como no discurso simplificador do positivismo), modificar as regras de interpretação da observação e descrever diferentemente o que vemos.

Uma experiência não falseia um modelo, pois não fornece o resultado esperado, pode-se sempre atribuir esse fracasso a perturbações de várias ordens ou a outras hipóteses ad hoc: se um doente recebe um diagnóstico de “gripado”, não é porque certos sintomas não se encaixam tão facilmente no “modelo” “gripe” que um médico abandonará de imediato essa hipótese. Ou se a aceleração de um objeto, contrariamente ao modelo, não é constante, posso atribuir esse fenômeno, por exemplo, à fricção do ar. Decidir que uma experiência é crucial é portanto introduzir um elemento voluntarista (e portanto, não-neutro). Se uma energia parece realmente ter “desaparecido” (o que viola o princípio da conservação de energia), colocarei a hipótese de que ela deve ter aparecido sob outra “forma”. O mesmo se dá a respeito da hipótese sistemática da evolução. Em economia, a lei da oferta e demanda tem a mesma característica, um conceito não verificável no qual se faz entrar de maneira sistemática toda uma série de observações econômicas: se alguma coisa não se encaixa na lei da oferta e da procura, buscar-se-á inventar outras formas de ofertas e de demanda; por exemplo, dir-se-á que existe também uma procura de “estatuto social” etc.

Depois, pode ocorrer que, em um dado momento, por uma razão ou por outra, ou mais freqüentemente por razões múltiplas, abandone-se essa linha. Foi desse modo que, no século XIX, abandonou-se a linha segundo a qual o calor era representado como um fluido. As razões para se abandonar essa descrição são complexas ao extremo. Teria sido possível construir modelos interpretativos bem eficazes, tão eficazes talvez quanto os modelos atuais, conservando a hipótese do fluido (aliás, a teoria dos fonons corresponde a essa estratégia). Mas há momentos em que, só Deus sabe por que, um certo modelo interpretativo não parece inteiramente satisfatório (Kuhn diria que a mentalidade dos cientistas, em respeito à configuração socioeconômica, mudou); então, se um outro estiver dispo­nível, ele é adotado.

Existem verdadeiras linhas de pesquisa para cada uma das técnicas. Por exemplo, no domínio em questão, existe a linha de meios de transporte marítimos, aéreos, terrestres etc. Existem também as linhas de técnicas para o motor a explosão, ou para o motor elétrico etc. Os motivos que levam a adotar ou a rejeitar uma determinada técnica são complexos e não obedecem a uma lógica que determinaria a priori (i.e, logicamente/objetivamente) em que elas são ou não eficazes. Por exemplo, não é tão fácil ver por que o programa de pesquisas sobre o motor elétrico, para os carros, foi abandonado no final do século passado. Fatores econômicos, interpessoais, políticos, afetivos, culturais etc. cruzam-se com aqueles que de­nominamos puramente técnicos (por que, aliás, os chamamos de “puramente técnicos”?). Os motivos da rejeição de uma pista não são jamais unicamente “racionais”; ou, se os chamamos assim, é de uma maneira não-falseável (é com efeito sempre possível encontrar uma boa “razão” para dizer por que a abandonamos, seja essa razão de ordem econômica, afetiva, cultural etc.). Mas a única coisa que parece clara é que não existem razões “científicas”, no sentido usual da palavra, que podem determinar de maneira clara se há ou não motivo para se firmar em uma direção qualquer.

Do mesmo modo, quando se trata de falar da resolução de problemas tecnológicos, adotamos uma atitude diferente da que adotamos quando se trata de problemas “científicos”. Por exemplo, se for o caso de resolver o problema da armazenagem dos materiais radioativos, ninguém pensará tê-lo resolvido de modo absoluto: se for alguém um pouco honesto pelo menos, que se encontrou uma solução que corresponde a um certo número de critérios que se sabe relativos (critérios de segurança, de rentabilidade econômica etc.). Quando nos pergun­tamos se uma proposição científica é aceitável, nós nos referimos sempre a uma série de critérios práticos. Uma teoria que permitirá que se compreenda melhor como funciona um laser, ou a trajetória de um planeta, será considerada como aceitável. Nesse sentido, compreender uma proposição científica não é alcançar uma espécie de verdade eterna, mas é saber servir-se de um modelo de maneira concreta, em ligação com um certo número de projetos concretos. Se um grupo de matemáticos estuda problemas de tráfego em um aglomerado urbano, é pouco provável que ele deixe de levar em conta os interesses da população que habita as cidades-dormitório em torno da metrópole.

Para considerar um resultado científico como aceito e aceitável, os cientistas põem em jogo toda uma série de critérios que se pode mais facilmente determinar a posteriori do que a priori. Se um resultado vem do laboratório de um Prêmio Nobel, por exemplo, há mais chances de que ele seja aceito do que se vier de um laboratório menos conhecido. Já há algumas décadas, a sociologia da ciência tem examinado, no detalhe, como se realizavam as negociações concretas que conduziam a comunidade científica a aceitar esta ou aquela teoria. Nessas negociações entram elementos de várias ordens, desde relações de força até considerações de ordem financeira, passando por ambições de carreira, pressupostos filosóficos, políticos etc. (cf. Isabelle Stengers). Assim, quando se examina a controvérsia entre Pasteur e Pouget a respeito da “geração espontânea”, está-se longe de um debate que se situaria pura e simplesmente no plano da “racionalidade unicamente científica” (cf. Latour). Ao se falar dos interesses da comunidade científica, designam-se os interesses de uma corporação; mas esses interesses podem ocultar as divergências. Poderia ser que um assistente de laboratório se encontrasse em uma maior solidariedade “objetiva” com operários da indústria do que com o seu chefe de laboratório.

No entanto, com toda a sua diversidade, a comunidade cientí­fica não ocupa uma posição aleatória na sociedade: ela pertence à classe média de nossa sociedade industrial (nos países em desenvol­vimento, a comunidade científica ocupa uma posição social dife­rente, o que exigiria uma análise mais apurada, muito importante para compreender o papel da ciência e da técnica nesses países). Ela pertence a grupos que não têm um enorme poder social, mas que assim mesmo, estão no centro da sociedade e tendem a identificar-se com os “interesses da sociedade”, tais como definidos pelos grupos privilegiados ou pelos grupos dominantes, essa “classe média” caracteriza-se ainda por uma identificação bastante forte com a ordem social existente (afinal, para essa classe social, a sociedade “não está tão mal assim!”), acompanhada de um ressentimento (“roubam-nos uma parte de nosso trabalho através dos impostos, pela má organização da sociedade, pelo desperdício etc.”). Uma boa parte dessas características da classe média (cf. Bellah) surge na comunidade científica.

Além disso, essa “racionalidade científica” é um conceito relativamente abstrato que, em geral, apenas reproduz a história da ciência vista pelos vencedores (os europeus). Quando uma teoria científica é finalmente aceita, tem-se a tendência a dizer que ela é e que ela sempre foi racional. No entanto, no concreto da história, entra em jogo toda uma série de elementos que, pelo menos em nossa época, nunca foram considerados científicos. Na argumentação de Newton, por exemplo, havia tanto raciocínios filosóficos, teológicos quanto raciocínios “científicos” (embora a distinção entre esses vários tipos de raciocínios seja feita posteriormente por nós, ao passo que Newton pensava de maneira global, misturando o que nós chamamos de física e teologia). Aliás, um tipo de raciocínio que consideramos “racional” em determinada época pode, mais tarde, ser considerado como não sendo (cf. Bloor).

Existem conhe­cimentos que podem ser muito úteis, mas que serão menos apreciados: ninguém receberá um prêmio Nobel de medicina por ter feito com que doentes de um país em desenvolvimento aceitassem tomar uma medicação simples (como a reidratação oral para a diarréia dos bebês).

É comum ouvir geólogos definir a sua disciplina como a ciência da Terra, como se esta fosse um objeto empiricamente dado. Pode-se porém descrever os elementos constitutivos do conceito teórico de Terra, na base da geologia moderna. Não se trata de um conceito empírico, mas de um conceito definido por diferenças valorizadas (i.e, ideológica). Por exemplo, a geologia examina a “Terra”, separan­do-a dos humanos que a habitam. Esse caso ilustra a força do paradigma, pois este dispensa uma consideração de tudo ao mesmo tempo.

Além disso, as histórias (teorias) científicas não são equivalentes; elas podem explicar as coisas de maneiras diferentes; podem atribuir uma maior importância a uma observação particular, ou deixar outras de lado. Por exemplo, em uma história, não se conferirá importân­cia alguma ao pequeno coelho que se encontra no desenho, ao passo que em uma outra, esse pequeno coelho poderá ter uma importância enorme, pois é ele que vai ajudar Tintin a sair do túnel onde ele está preso. Do mesmo modo, os modelos científicos negligenciam certos elementos da observação que, na sequência, poderiam parecer extremamente importantes, como, por exemplo, as trajetórias dos posítrons nas câmaras de Wilson, antes da descoberta do posítron por Anderson.

Semelhante visão não parece de modo algum sustentar-se historicamente. Durante muito tempo, ciência e técnica se desenvolveram em separado. Na verdade, muitas vezes foi a técnica que esteve em avanço em relação às compreensões teóricas. Havia máquinas a vapor, por exemplo, bem antes que se falasse no ciclo de Carnot.

A ideologia é o discurso mais legitimador do que descritivo. Tecnocracia é abuso de poder, pois a ciência não é neutra. A interdisciplinaridade não corrige o interesse da ciência, por isso, só uma ciência proletária pode ser capaz de salvar o mundo.

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