A crítica da ciência da complexidade a ciência clássica

Esse texto é uma exposição do projeto apresentado por Edgar Morin em O Método, vol I: a natureza da natureza.

O papel da organização

A organização introduz uma dimensão física radical na organização viva e na organização antropossocial, as quais podem e devem ser consideradas como desenvolvimentos transformadores da organização fisica. Assim, a ligação entre física e biologia já não pode limitar-se à química, e nem sequer à termodinâmica. Tem de ser organizacional.

A intersubjetividade

Os maiores progressos das ciências contemporâneas efetuaram-se reintegrando o observador na observação. O que é logicamente necessário, dado que todo o conceito remete, não apenas para o objeto concebido, mas também para o sujeito que concebe. Nenhuma ciência física quis conhecer sua origem natural e nenhuma ciência social quis conhecer sua natureza física e metafísica. Existe em toda a ciência, mesmo na mais física, uma dimensão antropossocial. O grande corte entre as ciências da natureza e as ciências do homem oculta, simultaneamente, a realidade física das segundas e a realidade social das primeiras. A existência das ciências ditas sociais indica que as outras ciências não podem ser sociais e que as ciências sociais não podem ser físicas.

A escola do luto

Há 3 objeções ao enciclopedismo:
1. Essa ligação invadiria todo o campo do conhecimento e exigiria um saber enciclopédico impossível.
2. É preciso largar a necessidade de abstrair, e ligar o que é isolado ao todo.
3. O carácter circular da relação adquire a figura dum circulo vicioso, isto é, de absurdo lógico, uma vez que o conhecimento físico depende do conhecimento antropossociológico, o qual depende do conhecimento físico, e assim por diante até ao infinito. Temos assim, um ciclo infernal.

A chamada "escola do luto" diz que a quantidade de conhecimento impossibilita de interligarmos os conhecimentos, e isso é positivo por focarmos mais em descobrir (reducionismo) que interligar (interacionismo). As questões fundamentais são abandonadas como questões gerais (isto é, vagas, abstratas). A questão original que a ciência roubou da religião e da filosofia é a questão que justificou a sua ambição de ciência: «O que é o homem, o que é o mundo, o que é o homem no mundo?», que é atualmente remetida pela ciência para a filosofia, sempre incompetente aos seus olhos por etilismo especulativo, remete-a para a religião, sempre ilusória aos seus olhos por mitomania inveterada. A ciência delega questões fundamentais para a filosofia, como se os conhecimentos do homem não tivessem relação com sua vida.

O método

Foi graças ao método que isola, separa, dissocia, reduz à unidade e mede, que a ciência descobriu a célula, a molécula, o átomo, a partícula, as galáxias, os quasares, os pulsares, a gravitação, o eletromagnetismo, o quantum de energia; que aprendeu a interpretar as pedras, os sedimentos, os fósseis, os ossos, as escritas desconhecidas, incluindo a escrita inscrita no DNA. Todavia, as estruturas destes saberes estão dissociadas entre si. Atualmente, a física e a biologia só comunicam através de alguns pequenos pedaços de terra. A física já nem sequer consegue comunicar consigo mesma: a ciência-rainha está dividida entre a microfísica (mecânica quântica), a cosmofísica (relatividade geral), e o meio termo encontra-se ainda aparentemente submetido à física clássica, sem qualquer ligação entre eles. O continente antropológico anda à deriva, como a Austrália. Indivíduo, sociedade e espécie estão dissociados.

Etimologicamente, a palavra «método» significa caminho. Aqui temos de aceitar caminhar sem caminho, fazer o caminho no caminhar. O que dizia Antônio Machado: «Caminante no hay camino, se hace camino al andar». O método só pode formar-se durante a investigação; só pode desprender-se e formular-se depois, no momento em que o termo se torna um novo ponto de partida, desta vez dotado de método. Nietzsche sabia: «Os métodos vêm no fim» (O Anticristo). O regresso ao começo não é um circulo vicioso se a viagem significa experiência, donde se volta mudado. Então, o círculo terá podido transformar-se numa espiral onde o regresso ao começo é, precisamente, aquilo que afasta do começo.

O homem fragmenta-se. A idéia de homem é facilmente eliminável por ser miserável; o homem das ciências humanas é um espectro metafísico e metabiológico. Como o homem, o mundo está dividido entre as ciências, fragmentado entre as disciplinas, pulverizado em informações. Como é que os cientistas são incapazes de conceber a ligação entre a investigação «desinteressada» e a investigação do interesse? Podemos nos satisfazer com o fato de só considerarmos o indivíduo excluindo a sociedade, a sociedade excluindo a espécie, o humano excluindo a vida, a vida excluindo a física, a física excluindo a vida? Podemos aceitar que o conhecimento se funde na exclusão do cognoscente, que o pensamento se funderia exclusão do pensante, que o sujeito seja excluído da construção do objeto? Que a ciência seja totalmente inconsciente da sua inserção e da sua determinação social? Podemos considerar normal e evidente que o conhecimento científico não tenha sujeito, e que o seu objeto se divida entre as ciências, e se fragmente entre as disciplinas? Podemos aceitar semelhante noite sobre o conhecimento? Podemos continuar a lançar estas questões para o lixo? Sei que formulá-las e tentar responder elas é inconcebível, irrisório e insensato. Mas é ainda mais inconcebível, irrisório e insensato expulsá-las.

Hoje temos de pôr metódicamente em dúvida o próprio princípio do método cartesiano, a disjunção dos objetos entre si, das noções entre si (as idéias claras e distintas), a disjunção absoluta do objeto e do sujeito. Hoje, a nossa necessidade histórica é encontrar um método capaz de detectar, e não de ocultar, as ligações, as articulações, as solidariedades, as implicações, as interdependências e as complexidades. Temos de partir da extinção das falsas clarezas. Não do claro e do distinto, mas do obscuro e do incerto; não do conhecimento seguro, mas da crítica da segurança. Só podemos partir com a ignorância, a incerteza e a confusão. Mas trata-se duma nova consciência da ignorância, da incerteza e da confusão. Aquilo de que tomamos consciência não foi a ignorância humana em geral, foi a ignorância escondida e dissimulada, a ignorância quase nuclear, no seio do nosso conhecimento considerado como o mais certo de todos — o conhecimento científico. Sabemos agora que este conhecimento é mal conhecido e conhece mal, que é fragmentário e que ignora aquilo que desconhece e aquilo que conhece.

A anemia da ciência sem filosofia

A necessária decomposição analítica deve pagar-se com a decomposição dos seres e das coisas numa atomização generalizada? O necessário isolamento do objeto deve pagar-se com a disjunção e a incomunicabilidade entre o que está separado? É necessário que o conhecimento se divida em mil saberes? Ora, o que significa esta questão, senão que a ciência deve perder o respeito à ciência e que a ciência deve interrogar a ciência? Mais um problema que, aparentemente, se acrescenta à enormidade dos problemas, que nos obriga a renunciar. Mas é precisamente este que nos impede de renunciar ao nosso problema. Como ceder ao decreto duma ciência onde acabamos de descobrir uma enorme mancha cega? Não deveríamos antes pensar que esta ciência sofre de insuficiência e de mutilação? Mas então, o que é a ciência? Esta pergunta não tem uma resposta científica: a ciência não se conhece cientificamente e não tem nenhum meio para se conhecer cientificamente. Existe um método científico para considerar e controlar os objetos da ciência, mas não existe método científico para considerar a ciência como objeto de ciência, e ainda menos o cientista como sujeito deste objeto.

Existem tribunais epistemológicos que a posteriori pretendem julgar e avaliar as teorias científicas; existem tribunais filosóficos em que a ciência é condenada por defeito. Não existe ciência da ciência. Pode-se dizer que toda a metodologia científica, inteiramente dedicada à expulsão do sujeito e da reflexividade, mantém esta ocultação em si mesma.

Ciência negativa ao resgate da ciência positiva

Ciência é conhecimento metódico, mas não é sabedoria. Ciência depende de observação analítica, mas a sabedoria vem com a auto-observação. A sabedoria da ciência vem com a observação de sua própria atividade. Conhecimento é o valor de uso da informação, ciência é conhecimento metódico e sabedoria é a auto-observação (reflexão) da ciência. Saber é saber que quanto mais se sabe, mais se ignora.

A ciência positiva colocou a observação como o fundamento do método científico: só é possível descrever cientificamente o que é observável. A ciência negativa lembra que só observamos algo se não observarmos outro algo. Observar significa selecionar o que se observa do que não se observa. Acontece que o inobservável é muito superior (tem mais variedade) do que aquilo que se observa: o observável é uma região pequena do inobservável. Em outras palavras: o inobservável é a condição do observável. Nisso entra um paradoxo: a própria observação deve ser inobservável a si mesma, de modo que o observável nega seu próprio ato de observação. A crítica ideológica da ciência deve começar por aí: apontando o que foi apagado para que algo fosse observado. O aparato técnico observador tem essa função ideológica: separar o domínio do observável do inobservável e, ao mesmo tempo, por-se do lado inobservável. Essa operação de exclusão tem um propósito específico: eliminar o paradoxo da inobservalidade da observação. Esse paradoxo foi esclarecido por Heisenberg: tudo que é observado, já não é mais. Estabeleceu-se aí uma latência, um intervalo. Por outro lado, isso leva a outro paradoxo. Heidegger o enunciou: «a ciência não pensa». Devemos substituir esta por outra proposição: «a ciência positiva não se auto-observa». Já dizia Rabelais: «ciência sem consciência não passa de ruína», onde a consciência que falta aqui não é a consciência moral, é a consciência pura e simples, a aptidão para conceber a si mesma. É pelo paradoxo da auto-observação que a ciência negativa deve começar.

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